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Martha Medeiros fala no TRF sobre o cotidiano e a poesia da vida

Cronista foi a personalidade convidada neste mês para participar do projeto ‘Dialogando para promover a cultura’

04/03/2004 20:45:00

A escritora Martha Medeiros participou hoje (4/3), no auditório do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região, em Porto Alegre, do projeto “Dialogando para promover a cultura”. Ela foi a convidada especial desta terceira edição e abordou o tema “O difícil retorno das férias”, sendo entrevistada pela desembargadora federal Maria Lúcia Luz Leiria. O objetivo do projeto – que teve início em novembro e já contou com a presença do médico cardiologista Fernando Lucchese e do advogado Oswaldo de Lia Pires – é contar com a presença de personalidades para dividir seus conhecimentos com o público interno da corte, em uma conversa semelhante a programas televisivos de entrevistas. A presidente em exercício do TRF, desembargadora federal Marga Inge Barth Tessler, abriu o evento. Martha é formada em publicidade e propaganda, mas deixou de trabalhar nessa área e hoje se dedica exclusivamente à literatura, incluindo crônicas no jornal Zero Hora e no site Almas Gêmeas, do portal Terra, poesias e matérias para as revistas Cláudia e Viagem. Também já escreveu um romance, “Divã”. Seu último livro é “Montanha Russa”, lançado no ano passado na Feira do Livro de Porto Alegre. Ela recordou que, para começar a publicar poesia, recebeu um grande incentivo de Luciano Alabarse, diretor teatral e servidor do TRF. Veraneio X férias A cronista declarou que faz o que gosta, pode se dar ao luxo de trabalhar em casa e não considera seu ofício opressivo. “É prazeroso, não precisa ser algo separado da vida”, disse. “Quem tem um trabalho como o meu, está de férias o ano inteiro.” Mesmo assim, em janeiro e fevereiro de cada ano, ela costuma parar com suas atividades e ir com a família para o litoral. “Mas não chamo isso de férias, e sim de veraneio, porque seguimos em uma rotina, nos transferimos para a praia com os filhos e continuamos indo ao supermercado”, afirmou. “Para mim, férias é conseguir sair do cotidiano, conhecer outras culturas, outros lugares.” Por isso, durante o ano, ela e o marido viajam sozinhos para destinos diferentes. Sobre a sua coluna do último domingo (29/2) em Zero Hora (ZH), Martha afirmou que, durante seu veraneio, foi muito bem substituída interinamente em seu espaço no jornal pela jornalista Cláudia Laitano, “que escreveu crônicas ótimas”. “Quando li, pensei isso, que todos nós somos substituíveis, precisamos nos atualizar esquizofrenicamente, sempre, não só no trabalho, mas na própria vida”, destacou. Virada na vida A entrevistada lembrou que os anos em que trabalhou dentro de uma agência de propaganda, como redatora publicitária, foram muito produtivos e a ajudam bastante no que ela faz atualmente, usando em suas crônicas, mesmo quando trata de temas mais áridos, um pouco do humor, da ironia e da leveza com que os anúncios comerciais tratam os assuntos. “Eu usava meu texto para seduzir as pessoas a consumirem coisas, parei porque quis passar a vender idéias”, revelou. Paralelamente, já escrevia poesia como hobby. Quando seu marido recebeu uma proposta para trabalhar em Santiago do Chile, ela deixou a agência, parou de trabalhar, foi com ele para o outro lado dos Andes e deu uma virada em sua vida. A estada de oito meses em Santiago também rendeu, posteriormente, um livro sobre a cidade destinado a viajantes. Naqueles tempos de ócio, ela escreveu muito. “Tanto a propaganda como a poesia trabalham com textos curtos, lá eu treinei uma escrita mais longa.” O jornalista Fernando Eichenberg, amigo da família, visitou o casal na capital chilena e levou um texto de Martha, sobre virgindade, para seus colegas de ZH. Eles gostaram e pediram autorização para publicá-lo. “A receptividade daquele texto que era para ser filho único foi boa, pediram outros e, quando vi, acabei ganhando espaço fixo e virando cronista”. Ela já desempenha essa atividade há dez anos. Reflexão sobre o cotidiano Maria Lúcia perguntou por que as pessoas se identificam tanto quando lêem as crônicas de Martha. “Uso humor e assuntos muito cotidianos, coisas prosaicas que acontecem na casa da gente”, respondeu. “Hoje em dia, passamos tão velozmente pela vida que não temos tempo para refletir sobre as coisas consideradas mais mundanas. Acho que por isso há essa empatia com o público, que é algo emocionante”. A escritora ressaltou que escreve todos os dias, às vezes por encomenda, e que tudo pode motivá-la, desde uma ida ao supermercado até um filme a que assistiu. Apontou que, como não dispõe de uma coluna diária, quando vai tratar do menino Iruan, por exemplo, Paulo Santana e outros já escreveram sobre ele. “Então, tento dar uma visão pessoal sobre assuntos que já foram abordados.” Por isso, não usa como tema somente fatos jornalisticamente relevantes, “mas a vida cotidiana de todos nós”. Múltiplas personas contra a clausura A convidada relatou também que, na crônica, embora procure embutir sentimento, é mais racional, mais responsável, com prazos. “Se não estiver inspirada, azar, tenho que escrever do mesmo jeito”, contou. “Na poesia, eu solto o meu lado mais selvagem, menos regrado, e me ponho em contato com todas as Marthas que eu não escolhi ser”, afirmou, observando que todos nós adotamos uma personalidade “padrão” na nossa vida, no caso dela, a “Martha oficial”. “Às vezes, escrevo como homem, como anciã, como menina, como maluca, como solteira. Temos que relaxar um pouco, vivemos muito enclausurados em conceitos do que é certo, do que é errado, mas temos outras necessidades”, pregou. Para ela, viver com mais leveza pode ajudar até a trabalhar melhor, com mais tranqüilidade. Seus livros “Trem-Bala” e “Almas Gêmeas” viraram peças teatrais, sob direção de Irene Brietzke. “Quando ela disse que queria adaptar, pensei: ‘A Irene bebeu!’ Meu texto não tem diálogo, não tem enredo, pensei que não poderia ser dramatizado”, lembrou, acrescentando que a diretora provou o contrário. “É tudo recriado, as mesmas palavras têm outra entonação. Ver pela primeira vez causa um estranhamento.” Ela disse que, enquanto seus textos impressos destinam-se a leitores isolados e distantes, as peças lhe deram a possibilidade de ver uma reação coletiva do público à sua obra. “Foi um presente que a Irene me deu”, resumiu. Seu romance, “Divã”, também está sendo adaptado para o teatro no centro do país. Cultivando a arquitetura das palavras Martha também definiu-se como uma leitora voraz. “Tenho paixão por textos bem escritos, é como ser um arquiteto das palavras. Primeiro eu aprecio a construção, depois vou ver se concordo ou não com as idéias”, salientou, lembrando que admirava muito o estilo de Paulo Francis, apesar de muitas vezes discordar do que ele dizia. “Luis Fenando Verissimo é um gênio, às vezes eu me sinto constrangida em escrever no mesmo jornal que ele. Esses tempos, fui reler crônicas de Clarice Lispector e deu vontade de parar de escrever e ir vender milho na praia, porque tem muita gente fazendo muita coisa boa no Brasil”, confessou. Para a escritora, a leitura é um prazer, mas também é um hábito que precisa ser cultivado. Para incentivar crianças a desenvolvê-lo, ela pensa que, desde cedo, ainda antes da escola, os livros têm de fazer parte da casa, espalhados por todos os cômodos, “não escondidos em um quartinho”. Segundo ela, se os pequenos vêem os pais lendo naturalmente e com prazer, já podem ter sua curiosidade despertada. “Escrever também é um hábito, a cada dia se fará melhor”, defendeu. “Que bom que a Internet, bem ou mal, colocou as pessoas para escrever. Todo mundo tem de escrever direitinho, jogador de futebol, modelo, isso tem de fazer parte da vida como a higiene diária”, concluiu. O projeto “Dialogando para promover a cultura” é promovido pela Presidência do TRF e organizado pela Divisão de Seleção, Acompanhamento e Desenvolvimento (Disad) da Diretoria de Recursos Humanos do tribunal.


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